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    ‘PESSOAS ORDINÁRIAS FAZENDO COISAS EXTRAORDINÁRIAS’

    Em 2006 recebi um telefonema de meu amigo Adriano Seabra me convidando para fazer apoio [quem ajuda dando água, servindo comida etc.] numa prova que ele ia correr. Perguntei se eu poderia participar. Ele me disse que enviasse o currículo. Mandei de brincadeira, pois ainda não sabia exatamente do que se tratava. Fui aceito. E agora?!

    Descobri que era uma corrida de 217km, uma das etapas do circuito mundial de ultramaratonas de 135 milhas, encabeçada pela famosa Badwater. A Brazil 135 acontece na Serra da Mantiqueira, entre Minas e São Paulo, pelo Caminho da Fé. E equivalia a subir e descer o Everest em até 60 horas! Ao contrário do que muitos amigos diziam, fiz os cálculos e parecia ser possível completar.

    Imaginei correr 100km a cada 24 horas. Assim, ainda sobrariam 12 horas para ajustes, alimentação e sono. Cerca de 20 corredores foram aprovados.

    Em janeiro de 2007 partimos para a prova. Eu e minha equipe de apoio, o Marcelão e o Henrique. Fiquei impressionado com o clima amistoso da prova (tanto que, desde então, não perco a BR por nada!) Depois da largada, os competidores iam correndo devagar e batendo papo. Não conhecia ninguém e me sentia deslocado, pois todos falavam de provas que já tinham participado e eu estava na minha primeira experiência em ultras.

    De repente um deles fala: “Essa corrida só começará mesmo no km 180”. E eu pensei: “Meu Deus! E o que farei até lá???” Achei melhor começar a correr. E corri. Me sentia bem e assim fui correndo, correndo, correndo… Assim, destruí meu planejamento e nas primeiras 24 horas, em vez dos 100km planejados, corri quase 170km! No km 180, em que diziam que a prova começaria, eu estava destruído! Fiz uma tendinite horrorosa nos dois pés e tinha uma suspeita de fratura por estresse na canela esquerda. Não conseguia mais correr. Doía muito. Caminhava a cerca de 2km/h!

    A minha sensação era de que as lesmas me ultrapassavam. Também não conseguia descer as intermináveis ladeiras. Mas descobri que descendo de costas não tinha dor. E lá fui eu.

    E aí aparece o Manoelzinho Mendes. Tinha sido apresentado a ele no dia anterior. Me disseram que ele era um dos melhores ultramatonistas do Brasil. Manoelzinho, em vez de me ultrapassar, parou do meu lado para perguntar o que havia acontecido. Contei. E, para minha surpresa, ele me perguntou o que nós faríamos.

    “Nós? Como assim, nós? Eu continuarei me arrastando e você corre para tentar ganhar a prova”. Ele me responde que não poderia me deixar ali, naquele estado. Após uma grande insistência minha, Manoelzinho partiu.

    Dali a pouco, chega o Sérgio Cordeiro, outro ícone das ultramaratonas e ultraman. Também queria saber o que aconteceu e oferece ajuda. Peço que continue. Antes de partir, o Sérgio me disse que estaria me esperando na linha de chegada. Que incentivo!

    Esse era realmente um esporte com uma mentalidade diferente de todos os outros que eu já havia experimentado. E lá fui eu.

    Mais à frente, precisei trocar o tênis por uma papete, pois os pés estavam muitíssimo inchados.

    Marcelão e Henrique sofriam junto comigo e, faltando cerca de 40km para a chegada, sugeriram que eu abandonasse a prova. Aparentemente, fazia todo sentido parar. Mas (e as ultramaratonas têm muitos mas…) apesar da dor, tinha um desfrute e, incrivelmente, eu estava me divertindo e queria chegar até o fim.

    Então, segui. Segui lentamente, da forma como conseguia progredir. Quando a organização da prova avisou aos atletas que estavam na linha de chegada que eu estava me aproximando, o Sérgio Cordeiro chamou o Marcelão e partiram para a trilha, em minha direção. Falou que quando eu os encontrasse, esqueceria da dor e iria até o fim! Realmente. Vê-los me esperando e depois me acompanhando foi muito especial e motivador.

    Cheguei!

    Ao passar a linha de chegada, entre abraços e comemorações, vi Manoelzinho chorando, emocionado. A partir daquele momento, percebi que faria parte do universo das ultramaratonas. Uma atividade dura, que exige uma boa preparação física e mental, que te faz ver a vida com novos olhos.

    E aí, vale a máxima da Bad 135 miles World Cup: “Ordinary people doing extraordinary things”